Uma história natural da curiosidade – Alberto Manguel

“Sou curioso quanto à curiosidade.” Com esta frase, Manguel abre um livro ambicioso: de mãos dadas com Dante, caminha com ele pelo Inferno, Purgatório e Paraíso pra escrever sobre os destinos que cabem àqueles que têm, no hábito de perguntar, a própria maneira de viver. E como perguntar é uma característica típica de curiosos, a epígrafe do livro não poderia ter sido mais bem escolhida:

“Em seu leito de morte, Gertrude Stein ergueu a cabeça e perguntou: ‘Qual é a resposta?’. Quando ninguém falou, ela sorriu e disse: ‘Neste caso, qual é a pergunta?'”

O bom de ler Manguel – um de meus autores preferidos – é que sempre saímos com mais repertório do que quando iniciamos o livro. Em Uma história natural da curiosidade, sairemos sabendo mais sobre os caminhos da leitura, da usura, do orgulho, das punições às ideias, da imaginação no progresso técnico-científico e muito mais. Outro efeito: também sairemos mais sábios, pois o autor tem a qualidade de refletir sobre a existência ao mesmo tempo com ternura e aceitação.

A companhia de livros, que no caso desse autor vem de longa data e em uma quantidade incomum, sempre faz o leitor viver muitas vidas. A vantagem óbvia é ampliar os horizontes do que se conhece. A vantagem menos visível é ampliar a leitura que se faz de si: cada livro abre a possibilidade de um autorretrato. Manguel não deixa de mencionar, também, o gozo linguístico, incentivo inesgotável pra que continuemos virando páginas e adquirindo novas obras. No fim das contas, ainda que ler nos traga a improvável companhia do silêncio, aquela voz que ouvimos mentalmente na leitura exerce o papel de cúmplice pra nossa existência, tornando-a, assim, menos vazia.

Creio que a coleção de citações que selecionei abaixo dará uma boa amostra da obra.

A boa e má curiosidade

“Como sabe todo inquisidor, afirmações tendem a isolar; perguntas, a unir. A curiosidade é um meio de declarar nossa aliança com a comunidade humana.” (p. 8)

– Numa época em que tudo é político e que a política se faz através de lacrações, não me surpreende que nossa comunidade esteja tão fragilizada. Alguém ainda sabe perguntar antes de declarar o que quer que seja?

“A constatação da impossibilidade de uma tarefa não nos impede de tentá-la (…)” (p. 17)

– Vide a educação de crianças.

“Aquino leva mais além a preocupação de Agostinho, alegando que o orgulho é apenas a primeira de quatro possíveis perversões da curiosidade humana. A segunda envolve a incursão em questões menores, como ler literatura popular ou estudar com professores inidôneos. A terceira ocorre quando estudamos coisas deste mundo sem referência ao Criador. A quarta e última, quando estudamos o que está além dos limites de nossa inteligência individual. Aquino condena essas espécies de curiosidade só porque elas nos distraem do maior e mais pleno impulso da exploração natural.” (p. 41)

– Incurso em questões menores; estudo coisas sem referência ao Criador; estudo coisas além da minha inteligência. Também sou orgulhosa de fazer os três. Veredito: culpada.

“Uma história, se for boa, suscita em sua audiência tanto o desejo de saber o que acontece em seguida quanto o desejo conflitante de que a história nunca termine: essa dupla ligação explica nosso impulso para contar e ouvir histórias, e mantém viva nossa curiosidade.” (p. 62)

– Prova inconteste de que conseguimos conviver com sentimentos conflitantes, ainda que pareça impossível conviver com quem vota diferente.

“É assim que nosso pensamento evolui: tentando enxergar a cada vez não somente as possíveis respostas a nossas perguntas — em outras palavras, as perguntas que serão conjuradas em nossa próxima busca —, mas também as aleatórias, às vezes trágicas, consequências de pisar em paisagens inexploradas.” (p. 74)

– A tragédia se constrói a partir da inevitabilidade do destino que é atribuído aleatoriamente a azarados.

“Um professor pode ajudar os estudantes a descobrir territórios desconhecidos, provê-los de informação especializada, ajudá-los a criar para si mesmos uma disciplina intelectual, mas, acima de tudo, ele ou ela deve estabelecer para si um espaço de liberdade mental no qual possam exercitar sua imaginação e sua curiosidade, um lugar no qual possam aprender a pensar.” (p. 80)

– Dou aulas há muito tempo. O que mais me entristeceu em trabalhar com educação após o advento das “fórmulas de lançamento” é ver o ofício da educação transformado em entretenimento, com a missão de faturar 6 dígitos em 7 dias. Quem inventou isso ficou milionário, mas sua prática será lembrada como algo que estragou o ensino.

“Nos primeiros anos do século XVII, Francis Bacon adotaria a visão oposta na investigação humana: ‘Se um homem começar com certezas’, argumentou Bacon, ‘ele acabará com dúvidas; mas se ele se contentar em começar com dúvidas, acabará com certezas’.” (p. 130)

– E esta é minha deixa pra lhe indicar a leitura de Ignorância, do Stuart Firestein, sobre o papel da dúvida no desenvolvimento da ciência. Está resenhado aqui.

“Para Abulafia, o prazer é o fruto principal da experiência mística, e também seu propósito essencial, mais importante do que a obtenção de respostas intelectuais.” (p. 136)

– Esta experiência direta de gozo com Deus levou não poucas pessoas à fogueira. No catolicismo, claro.

“(No conto policial de Borges, ‘A morte e a bússola’, um inspetor de polícia oferece ao investigador uma certa hipótese que poderia explicar o crime. ‘Sua hipótese é possível, mas não é interessante’, é a resposta do investigador. ‘Você vai responder que a realidade não tem a menor obrigação de ser interessante. Ao que respondo que a realidade pode abdicar dessa obrigação, mas as hipóteses não podem.’)” (p. 169)

– Como não sorrir depois de um raciocínio escrito assim? 🙂

“No Paraíso, não há lembrança de pecado.” (p. 197)

– Daria uma tese discorrer se a memória do pecado é necessária ou opcional ao desfrute do Paraíso.

“Tomás de Aquino alegou que após a morte, quando a alma deixou o corpo, como as pessoas não mais precisariam se alimentar, não haveria animais no céu.” (p. 308)

– Ninguém mais dá razão a São Tomás: é claro que o céu está cheio de cães e gatos adoráveis.

“O primeiro museu universitário — primeiro museu construído com o propósito de facilitar o estudo de um grupo específico de objetos — foi o Museu Ashmoleano em Oxford, fundado em 1683. Seu núcleo consistia numa coleção de coisas estranhas e fantásticas reunidas por dois botânicos e paisagistas do século XVII, pai e filho, ambos chamados John Tradescant, e enviadas numa barcaça de Londres a Oxford.” (p. 377)

– Minha imaginação me faz querer que realmente houvera objetos fantásticos mas, em retrospectiva, tudo que o que parecia fantástico apenas ainda não havia sido explicado.

“Otlet acreditava que o cinema, juntamente com a recém-inventada (mas ainda não tornada pública) televisão, era o meio pelo qual a informação seria transmitida no futuro. Para promover essa ideia, ele desenvolveu uma máquina revolucionária (semelhante ao microfilme) que copiava livros fotograficamente e projetava as páginas numa tela. Ele denominou sua invenção bibliophote, ou “livro projetado”, e imaginou a possibilidade de livros falados, de livros transmitidos à distância, e de livros visualizados em três dimensões — cinquenta anos antes da invenção do holograma — que estariam disponíveis aos cidadãos em seus próprios lares, como hoje é a internet. Otlet chamou esses gadgets de ‘substitutos do livro’.” (p. 384)

– Otlet, final do século XIX-início do XX. O futuro sempre é imaginado no passado.

“Além da impossível constatação de nossa própria morte, à medida que ficamos mais velhos vamos tomando ciência, persistentemente, da crescente ausência de outros.” (p. 415)

– Minha vó, que fez 102 anos em agosto passado, lá na virada dos seus 90 me disse: todos com quem eu cresci estão indo. Imagine agora.

Se fez o Verbo

“O que queremos saber e o que podemos imaginar são dois lados de uma mesma página mágica.” (p. 14)

– É que a imaginação não está aquém do pensamento, mas é uma de suas funções.

“Sem histórias, todas as religiões seriam meramente preces. São as histórias que nos convencem.” (p. 20)

– Sugiro que assista a um curso que disponibilizei gratuitamente aqui no site intitulado Marketing Sensorial. Nele, mostro como o marketeiro Martin Lindstrom desconstrói o mistério religioso pra colocar suas ferramentas a serviço do branding. Outra alternativa é ler o livro dele, BrandSense, no qual me baseei pra dar o curso.

“Obras literárias extraordinárias parecem estar ligadas a histórias extraordinárias de sua concepção.” (p. 28)

– Pudera! O extraordinário sempre é carregado de mito.

Ler

“Numa paródia de correntes artísticas do século XX, do Nouveau Roman à arte conceitual, Borges e seu amigo Adolfo Bioy Casares imaginaram uma forma de crítica que, rendendo-se à impossibilidade de analisar uma obra de arte em toda a sua grandiosidade, meramente reproduz a obra em sua totalidade.” (p. 16)

– Puxa vida! De certa forma, é o que faço no As Melhores…

“É verdade que quando deparamos com uma passagem assombrosamente bela ou com um argumento poético intrincado que não nos tinha impactado tanto numa leitura anterior, nosso impulso não é tanto o de comentá-lo, mas antes o de lê-la em voz alta para um amigo, para compartilhar, tanto quanto possível, a epifania original.” (p. 16)

– Como não há amigos por perto, reescrevo-as aqui.

“Gerações inteiras de leitores não conseguem exaurir esses [grandes] livros, e o fracasso da língua em comunicar integralmente lhes empresta uma riqueza ilimitada que só nos penetra na medida de nossas capacidades individuais. Nenhum leitor jamais atingiu as profundezas do Mahabharata ou da Oresteia.” (p. 17)

– A única definição de clássico que respeito é que ele é infinito.

“Esse campo semântico tem sempre múltiplas camadas porque nosso relacionamento com a língua é sempre um relacionamento com o passado, assim como com o presente e o futuro. Quando usamos palavras, estamos fazendo uso da experiência acumulada em palavras antes de nosso tempo; estamos fazendo uso da multiplicidade de significados depositados nas sílabas que empregamos para tornar nossa leitura do mundo compreensível para nós mesmos e para os outros. Os usos que precederam os nossos alimentam e alteram, sustentam e solapam nosso uso atual: quando quer que falemos, falamos em vozes, e mesmo a primeira pessoa do singular é na realidade plural.” (p. 429-430)

– Babel é destino.

Ler-se

“Uma das experiências comuns em muitas vidas dedicadas à leitura é a descoberta, mais cedo ou mais tarde, de um livro que permite, mais do que qualquer outro, uma exploração de si mesmo e do mundo, que parecer ser inesgotável e ao mesmo tempo concentra a mente nos mais ínfimos detalhes, de um modo íntimo e singular.” (p. 14)

– Pra Manguel, ele conta, livros assim foram alguns: Os ensaios de Montaigne; Alice no País das Maravilhas; Dom Quixote; As mil e uma noites; A montanha mágica. Parei pra pensar em quais foram os meus, consciente de que minhas chances seriam numericamente bem menores que as de Manguel. Mas posso dizer que, na adolescência, foram Dom Casmurro, O Retrato de Dorian Gray, o poema Dispersão do Mário de Sá; na faculdade, foram Ilusões perdidas do Balzac, As máximas de La Rochefoucauld e Os três mosqueteiros; Por que virei à direita, com ensaios de Pondé, J.P. Coutinho e Denis Rosenfield me marcou demais anos atrás. Recentemente, foi A coragem da verdade do Foucault. E, ainda, toda a saga de Harry Potter – e não me envergonho de dizê-lo. Mas eu tinha 40 quando Manguel escreveu este livro; ele, 70. Aos 70, declarou que seu livro definitivo é A divina comédia. Não sei se chegarei a ler essa obra até alcançar a idade dele. Ela nunca me chamou atenção. Mas como Manguel disse que chegou nela apenas aos 60, quem sabe eu não me surpreenda como ele?

“O termo lectura dantis foi criado para definir o que se tornou um gênero específico, a leitura de A divina come´dia, e tenho plena ciência de que, após gerações de comentários, a começar com os do próprio filho de Dante, Pietro, escrito pouco após a morte do pai, é imossível ser ou abrangentemente crítico ou minuciosamente original no que se tem a dizer sobre o poema. E, no entanto, há quem seja capaz de justificar tal exercício sugerindo que toda leitura é, no fim das contas, menos uma reflexão ou uma tradução do texto original do que uma imagem do leitor, uma confissão, um ato de autorrevelação e autodescoberta.” (p. 18)

– Certa vez, fiz uma oficina de escrita com Marcelino Freire. Diante da pergunta se valeria a pena escrever sobre um argumento já utilizado por muitos autores, ele respondeu que sim, porque a sua história apenas você pode contá-la.

“A arte de contar histórias, que parece não ter fim, na realidade não tem começo. Como não existe uma primeira história, as histórias nos concedem uma espécie de imortalidade retrospectiva.” (p. 62)

– Oxalá não tenha fim! Se o storytelling do marketing não acabar com a alegria de ouvi-las todas.

“Às vezes vou buscar um autor ou livro específico, ou um espírito simpático, mas frequentemente deixo a sorte me guiar: a sorte é um excelente bibliotecário.” (p. 126)

– Uma das razões pelas quais não compro livros indicados pelo algoritmo da Amazon. O elemento sorte está completamente eliminado dele.

“A busca por descobrir quem somos como seres humanos inteiros e singulares, a tentativa de responder à pergunta que concerne à vida é responsável, em certa medida, por nosso deleite com as histórias dos outros. A literatura não é ‘a resposta do mundo’, mas sim um valioso repositório de mais e melhores perguntas.” (p. 202)

– Esse trecho do Manguel conversa muito com o livro do Byung-Chul Han, A crise da narração, já resenhado aqui. Se curte filosofia, corre lá ler.

“Nossas leituras nunca são absolutas: a literatura desaprova tendências dogmáticas. Em vez disso, vamos mudando nossas lealdades, preferindo por algum tempo um certo capítulo de um certo livro e depois outros capítulos; um ou dois personagens caem em nosso gosto, mas depois outros tomam seu lugar. O amor duradouro de um leitor é uma coisa mais rara do que imaginamos.” (p. 202)

– Pondé sempre repete: quem tem livro preferido é porque leu pouco. Não sou cinéfila nem musicalífica; por isso, tenho filmes e músicas preferidas. Mas nunca consigo citar poucos livros preferidos – acho, na verdade, impossível fazê-lo.

“Essa transmigração de alma é o modesto milagre da literatura.” (p. 203)

– Modesto na literatura; magnífico nas artes cênicas.

“Foi ele [padre Domingo Jaca Cortejarena] quem me contou que, quando um apicultor morre, alguém tem de avisar as abelhas que seu tratador está morto. Desde então, desejo que alguém faça o mesmo por mim quando eu morrer, e conte a meus livros que não voltarei mais.” (p. 217)

– Manguel, seu filho da mãe: como consegue colocar tanta candura em algo tão melancólico?!

“A memória, que mergulha em nossas bibliotecas submersas e resgata das páginas há muito repassadas somente alguns parágrafos aparentemente aleatórios, escolhe melhor do que sabemos escolher (…)” (p. 432-433)

– A emergência de uma parágrafo qualquer em um momento desalentador é como uma revelação enviada por anjos.

“A poesia não oferece respostas, a poesia não pode apagar o sofrimento, a poesia não vai trazer os amados mortos de volta à vida, a poesia não nos protege do mal, a poesia não nos concede força ética ou coragem moral, a poesia não vinga a vítima nem pune o vitimizador. Tudo o que a poesia pode fazer, e somente quando as estrelas forem gentis, é emprestar palavras a nossas perguntas, ecoar nosso sofrimento, nos assistir na lembrança dos mortos, dar um nome aos feitos do mal, nos ensinar a refletir sobre atos de vingança e punição, e também de bondade, mesmo quando a bondade não mais está ali presente.” (p. 437)

– E não seria isso o que toda literatura ficcional pode nos oferecer? Companhia?

“Eles justificam a definição que, segundo Diodorus Siculus, foi inscrita acima das portas das antigas bibliotecas egípcias: ‘Clínica da Alma’.” (p. 468)

– Sempre achei que fossem e não é que esta onda de healing lit comprova mais uma vez essa verdade?

Escrever

“A arte de ler é, de muitas maneiras, oposta à arte de escrever. Ler é uma arte que enrique o texto concebido pelo autor, o aprofunda e o torna mais complexo, concentrando-o de modo a refletir a experiência pessoal do leitor e a expandi-la aos mais distantes confins do seu universo, e para além deles. Escrever, em vez disso, é a arte da resignação. O escritor deve aceitar o fato de que o texto não será mais do que um reflexo borrado da obra que concebeu em sua mente, menos esclarecedor, menos sutil, menos pungente, menos exato.” (p. 20)

– Creio que nos repartamos entre leitores e escritores por temperamento: nem todos lidam bem com o compromisso da escolha cabal de uma palavra.

“Escrever um livro é se resignar ao fracasso, por mais honroso que esse fracasso possa ser.” (p. 20)

– O fracasso de “escrever” um livro com IA não me parece muito honroso não.

“Sempre há modelos para toda nova incursão literária: nossas bibliotecas com frequência nos fazem lembrar que não existe essa coisa chamada originalidade literária.” (p. 36)

– Aqueles empreendedores que voltam dos EUA e lançam aqui a novidade do momento também nos fazem lembrar disso.

“Menos imediata, menos corpórea, menos reativa do que a arte da fala, a arte da escrita fortaleceu e enfraqueceu simultaneamente o poder do artífice da palavra. Isso vale, é claro, para todo dispositivo ou ferramenta em qualquer ofício em que a empreguemos. G. K. Chesterton definiu uma cadeira como ‘um equipamento com quatro pernas de madeira para um aleijado que só tem duas’.” (p. 111)

– Definição de CHAT GPT: um equipamento com inteligência para a pessoa que não tem nenhuma.”

“A escrita não reproduz a palavra falada: ela a torna visível.” (p. 121)

– Acabei de ouvir o gozo de Saussure no túmulo.

“[Abrahão] Abulafia comparou isso às variações executadas numa peça musical (um símile caro ao ensinamento sufi); a diferença entre as letras e a música era que, enquanto a música é apreendida pelo corpo e pela alma, as letras são perceptíveis apenas pela alma, sendo os olhos, como na antiga metáfora, as janelas da alma.” (p. 134)

– Depois disso, não há por que ficarmos de mau humor quando músicos ganharem Nobel de Literatura, certo? Eles têm o mesmo que escritores e ainda algo a mais.

“Os pampas de Martín Fierro são imediatamente reconhecíveis: a amplidão, o súbito aparecimento de uma cabana ou de uma árvore, o horizonte sem fim que o escritor francês Drieu La Rochelle descreveu como indutor de ‘uma vertigem horizontal”.” (p. 218)

– Quem chegou à fórmual “vertigem horizontal” pra descrever tal paisagem pode se aposentar com rendimentos vitalícios pagos pela humanidade.

“Nossos livros mais primevos são listas e catálogos sumerianos, como se dar nome às coisas e dispô-las sob várias categorias nos facultasse a compreensão delas.” (p. 366-367)

– Sempre! Diante de algo que não sabemos nomear, o pensamento fica paralisado.

“Como Petrarca compreendeu, a convicção íntima dos leitores é de que não há livros escritos individualmente: há apenas um texto, infinito e fragmentado, que folheamos sem preocupação com a continuidade ou com o anacronismo ou com reivindicações burocráticas de propriedade. Desde que comecei a ler, sei que penso por meio de citações e que escrevo com aquilo que outros escreveram, e que não posso ter outra ambição senão a de reestruturar e reorganizar.” (p. 397)

– Ça, c´est moi.

“Palavras sempre encerram outro significado que nos escapa.” (p. 436)

– Existe aquela mística do escritor que busca a palavra perfeita, não é mesmo? Encontrá-la é sua suprema realização.

“Nossa melhor maneira de contar a verdade é mentir.” (p. 444)

– Já diriam os cínicos.

“A ilusão é a única realidade: é isso que talvez queiramos dizer quando afirmamos que um escritor sabe.” (p. 465)

– “O poeta é um fingidor” etc.

Influências

“O que não conseguimos mapeia nossas ambições, tanto o que conseguimos (…)” (p. 73)

– E você, obviamente, sabe o motivo (numérico) de aquilo que não conseguimos ter a maior influência.

“Quando adolescentes, somos únicos. Quando ficamos mais velhos, nos damos conta de que o ser único do qual orgulhosamente falamos na primeira pessoa do singular é na realidade uma colcha de retalhos feita de outros seres que em maior ou menor medida nos define. Reconhecer essas identidades refletidas ou compreendidas é um dos consolos da velhice: saber que certas pessoas que há muito retornaram ao pó ainda continuam vivendo em nós, assim como nós agora viveremos em alguém de cuja existência sequer suspeitamos.” (p. 79)

– Isso é um tanto quanto psicanalítico, senhor Manguel! Hahaha. Bem, de fato assim é, o que me leva a entender por que, novos, nos enxergamos mais facilmente em um só signo e, mais velhos, tendemos a nos enxergar em todos.

“O exílio tem a qualidade da escravidão, um estado no qual nada pertence a você e você pertence a outrem, ao capricho de autoridades estrangeiras: mesmo sua identidade se perde, se sujeita a seu patrono ou benfeitor.” (p. 301)

“Porque aos exilados só se permite uma tarefa: a transcrição.” (p. 302)

“O exílio é um estado de desalojamento, mas também é uma forma pervertida de viagem na qual a meta impossível do peregrino é o único lugar do qual ele sabe estar barrado; sua peregrinação é para o inatingível.” (p. 302)

– A qualidade da imigração parece ser diferente, portanto, posto que há um local pra onde voltar do qual não se será barrado, ainda que não seja o local que lhe traga as condições ideais de viver.

“Tais justificativas para o assassinato são lugares-comuns: defesa de nossa fé verdadeira, sobrevivência da democracia, proteção dos inocentes, prevenção de perdas maiores têm sido todas invocadas como justificativa para matar os outros.” (p. 318)

– A mais atual é “sobreviência da democracia”.

“Até pouco tempo atrás, eu imaginava que meu corpo governava apenas minha juventude e, que, com a maturidade, minha mente assumiria esse lugar privilegiado.” (p. 394)

– Hahaha, como constatamos logo após os 50, estávamos enganados.

No último círculo do Inferno

“O conceito de dinheiro é algo que me escapa.” (p. 338)

– Nessa questão, você está dentro de uma enooorme irmandade.

“A burocracia infecta cada uma de nossas sociedades, mesmo as do outro mundo. No sétimo círculo do Inferno, os culpados por crimes contra a natureza são obrigados a correr sem parar, mas, como explica Brunetto Latini a Dante, ‘qualquer um deste bando que pare por um momento terá de se deitar depois por cem anos/sem se abanar quando o fogo o atingir’. Como na maior parte dos procedimentos burocráticos, não é oferecida explicação alguma.” (p. 339-340)

– Decisões monocráticas, ultimamente, tem se parecido bastante com a burocracia: não se oferecem explicações, pelo menos nenhuma plausível.

“A usura é um pecado contra a natureza porque encontra alento no que é naturalmente estéril: ouro e prata.” (p. 350)

– Pirâmide financeira incorre na mesma esterilidade.

“Contudo, apesar de teoricamente a usura ser tanto um pecado quanto um crime canônico, na prática, na florescente economia da Itália medieval, essas proibições dificilmente eram mantidas. Os cidadãos de Florença, por exemplo, de tempos em tempos eram obrigados por decreto a emprestar dinheiro a seu governo a uma taxa de juros de cinco por cento.” (p. 351)

– Eis como um gentleman xinga governos.

“O dinheiro é um símbolo complexo.” (p. 353)

– Tá explicado por que não é simples ganhá-lo, hihihi.

“As categorias do amor são representadas pelos vários pecados purgados na montanha. Aqueles que direcionam seu amor erradamente são os orgulhosos, os invejosos e os raivosos; aqueles cujo amor carece de vigor são os preguiçosos; aqueles cujo amor os inclina por demais fortemente para as coisas terrenas são os avarentos, os glutões, e os luxuriosos. Cada grupo tem lugar estritamente marcado na ascensão. A burocracia é muito rigorosa no Purgatório.” (p. 370)

– Um burocrata é alguém cuja imaginação está a serviço do método.

“Somos criaturas organizadas. Desconfiamos do caos. Embora a experiência nos chegue sem um sistema reconhecível, por algum motivo ininteligível, com cega e descuidada generosidade, acreditamos, apesar de toda evidência em contrário, na lei e na ordem, e retratamos nossos deuses como arquivistas e dogmáticos bibliotecários.” (p. 371)

– Me parece — posso estar enganada — que nos Trópicos os deuses também caíram na esbórnia.

“Como minha biblioteca, minha lista de ‘coisas a fazer’ não está destinada a se esgotar.” (p. 397)

– Como está sua to do list, meu jovem? – Como minha biblioteca, destinada a não se esgotar, meu lorde.

“Agostinho faz distinção entre “acreditar” e “estar convencido”: os que acreditam podem reconhecer que não sabem muita coisa sobre aquilo em que acreditam, sem duvidar de sua existência; os que estão convencidos pensam que sabem algo sem se dar conta de que não sabem muito sobre ele.” (p. 450-451)

– Agostinho do céu, vem ensinar ao povo convencido!

Escrito por Mayra Corrêa e Castro (C) 2025

MANGUEL, Alberto. Uma história natural da curiosidade. E-book. Tradução de Paulo Geiger. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

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