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O que escolheremos da aromaterapia?

Postado às 20:42 do dia 11/10/19

Biomedicina, Ayurveda, Medicina Tradicional Chinesa, Homeopatia. Estes são os sistemas médicos complexos mais familiares a aromaterapeutas brasileiros. Ainda há a Antroposofia, além de todas as medicinas ditas indígenas.

Quase sempre, não temos consciência de que a aromaterapia é calcada em cima do paradigma biomédico ocidental. Quando nomeamos os óleos essenciais como anti-inflamatórios, antibióticos, analgésicos, anti-espasmódicos, antioxidantes, etc, nomeamos suas propriedades terapêuticas alopáticas. Sim, fazemos alopatia com óleos essenciais, ainda que alopatia natural.

Mas a aromaterapia consegue cruzar a fronteira do paradigma biomédico e conversar com racionalidades médicas calcadas no princípio do vitalismo. Quando dizemos que os óleos essenciais restauram nossa energia vital, harmonizam nosso fluxo energético, podemos não ser conscientes disso, mas tomamos emprestados conceitos externos à biomedicina, a saber, conceitos como o de Prana do Ayurveda e o de Chi da MTC.

Não é automático e nem fácil, entretanto, abrir mão do paradigma biomédico – pois é a cultura na qual estamos imersos. Na verdade, considerando Ayurveda e MTC, pode-se mesmo questionar se esses sistemas usariam os óleos essenciais tal como os usamos. Muito provavelmente, não.

E não estou dizendo aqui que devamos abrir mão de um paradigma em detrimento de outro. Na maior parte das vezes, transitamos de um para o outro conforme nossa conveniência, limitações, tipo de paciente/interagente e tipo de sintoma/distúrbio. Mas me preocupa que, ao não termos claro o paradigma sob o qual atuamos enquanto aromaterapeutas, deixemos de ter assertividade, não consigamos construir conhecimento, não consigamos refletir sobre nossa própria prática, sequer nos encontrarmos enquanto profissionais.

Existe um ditado sempre repetido no Yoga: não é possível servir a dois mestres. Nosso ímpeto empreendedor ocidental, iluminista e rebelde, rechaça a sabedoria contida neste ditado. Mas precisamos considerar que se leva uma vida inteira pra entender a Biomedicina, o Ayurveda, a MTC, a Homeopatia, a Antroposofia, algum sistema médico indígena. Quando jovens, ainda cremos que seja possível nos dedicarmos a dois mestres. A maturidade mostra que poucas vezes é factível.

Já o acesso quase ilimitado ao conhecimento e à informação proporcionado pela internet nos faz crer que seja fácil adquirir competência em múltiplas áreas. As estratégias multidisciplinares nos fazem crer que possamos ser generalistas com o mesmo nível de competência que especialistas. Mas profissionais multidisciplinares não o são de fato: o que fazem, na real, é delimitar um objeto de estudo e olhá-lo sobre vários enfoques. Ou seja: troca-se o olhar especializado pelo generalista, mas se abre mão da variedade de objetos de estudos por apenas um.

A aromaterapia caminha pra uma alopatização – em vez de na direção de racionalidades vitalistas. Não vem ao caso refletir por quê – embora eu tenha algumas hipóteses. O fato é que quando consumidores buscam um óleo para o quê – em vez de para quem (parafraseando minha amiga Carla Véscovi) – , estão buscando uma medicina convencional que usa as mesmas estratégias usadas pelos medicamentos sintéticos, embora estejam buscando uma alternativa natural, com menos efeitos colaterais, e que esteja ao seu alcance. Normalmente, essas pessoas não têm consciência disso. E não estou dizendo que deveriam ter – são consumidores em busca de alívio pra seu sofrimento. No entanto, nós, que somos aromaterapeutas, deveríamos fazer este tipo de reflexão a todo o momento, porque a maneira como atendermos um consumidor/paciente/interagente moldará o futuro da aromaterapia e de como os óleos essenciais serão encarados pela sociedade.

Também não estou determinando como a aromaterapia e os óleos essenciais devem ser encarados. Nenhuma pessoa, sozinha, pode se supor capaz de fazê-lo. A aromaterapia será, como eu sempre disse e continuo dizendo, o que o mercado quiser que ela seja. Porém, na medida em que o mercado somos nós, cabe refletir sobre as escolhas que fazemos, cabe refletir se seremos capazes, enquanto profissionais, de manter a racionalidade médica que suporta nossa prática terapêutica fora de uma escolha consciente, se cabe transitarmos, cambaleantes, entre todas as racionalidades existentes, ao invés de firmarmos o pé em uma e levarmos o conhecimento acerca dos óleos essenciais até o limite do que ela permitir.

Será sempre uma escolha – infelizmente. Digo infelizmente porque as escolhas têm o péssimo hábito de nos obrigarem a abrir mão de escolhas diferentes. Gostaríamos muito que não fosse assim. Secretamente, desejamos poder escolher tudo, ter tudo, sermos tudo. Não é possível. Por mais que os óleos essenciais nos mostrem que “ei, dá pra agir no físico, e no emocional, e no espiritual, tudo ao mesmo tempo”, temos que nos curvar ao fato de que as plantas estão há milhões de anos na nossa frente em termos de desenvolvimento. Não sei se temos a mesma capacidade. Desde Platão, fomos acostumados a pensar que somos o ápice da evolução, nós e nosso grande córtex, e nossa grande capacidade de ter desejos, de agir, de nos comunicarmos e de pensarmos. Tendo a achar diferentemente: quem sabe se estes órgãos localizados, únicos, específicos do ser humano são o que nos têm impedido de construir conhecimento de forma, verdadeiramente, holística? Enveredar por estas reflexões requer muita filosofia e não é o caso deste texto.

O caso deste texto é colocar algumas perguntas entre você e os óleos essenciais, entre você e a aromaterapia, entre você e sua capacidade. O quanto conheceremos sobre as potencialidades dos óleos essenciais não acontecerá se não tivermos claro exatamente o que queremos conhecer deles. Você pode dizer: quero conhecer tudo. E eu lhe direi: esqueça, isso é viagem. Só que é possível fazer uma escolha, dedicar-se a ela, ter tanto paciência quanto persistência cognitiva pra construir um conhecimento de fundo que lhe traga algo satisfatório. Está um pouco fora de moda aceitar restrições, aceitar “nãos”, aceitar limites. Quando você cresce ouvindo de seus pais que você pode ser o quiser, dificilmente cremos que não temos o direito de ser. Ainda que tenhamos este direito, faltou ensinar como escolher o que querer ser. A ironia da modernidade é que rejeitamos limites, enquanto nossa própria existência é limitada pela pele que envolve nosso corpo. Então, lamentavelmente, há limite no que possamos ser.

Meu conselho seria: não tenha receio de limitar o quanto você pode ter da aromaterapia, o quanto você pode conhecer dos óleos essenciais, o quanto você pode esperar que eles façam. Você não estará perdendo nada, ao deixar de querer tudo, porque, pra começo de conversa, não é possível ter aquilo que não tem limite.

A aromaterapia tem dado sinais de caminhar pra alopatização. Não é intrinsecamente bom ou ruim: é apenas uma escolha. Há outros paradigmas. Tampouco são intrinsecamente bons ou ruins: são, novamente, escolhas. As escolhas implicarão em perdas. Perder não é ruim quando você entende que o outro lado disso é ganhar. Esta história de que é possível escolhas do tipo ganha-ganha é papo pra boi dormir: uma escolha ganha-ganha é a perda de um dos lados ganhar mais que o outro. Podemos escolher colocar a aromaterapia numa relação de ganha-ganha com todos os paradigmas disponíveis? Podemos. Mas é bom estar de sobreaviso de que um lado não se desenvolverá mais do que o outro. Apenas tenha consciência disso. É possível ser um ótimo aromaterapeuta alopata, assim como é possível ser um ótimo aromaterapeuta vitalista. Um pouco mais complicado é ser ótimo em ambas as coisas – mas é possível ser medianamente bom nos dois se você optar por uma relação ganha-ganha. São escolhas. Escolher é difícil, mas incontornável.

Escrito por Mayra Corrêa e Castro (C) 2019

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