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Conheça Francis Hallé, o botânico das florestas tropicais.

Postado às 00:09 do dia 22/01/15

Um documentário extraordinário inspirado nos achados de um botânico especialista em florestas equatoriais primárias. Imagens de tirar o fôlego e a poesia de quem se acostumou a conhecer uma árvore por se sentar durante horas a desenhá-la. A experiência incomum de ver a floresta amazônica a vinte metros de altura na copa de uma figueira e a absoluta entrega de um ser humano à sabedoria desses seres que não se mexem, os vegetais.

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Francis Hallé, imagem do filme Il Était une Forêt (Luc Jacquet, 2013)

Tudo isso faz parte do Il Était Une Forêt (2013), Era uma vez uma Floresta, não lançado ainda no Brasil, de Luc Jacquet, o mesmo cineasta do aclamado A Marcha dos Penguins, vencedor do Oscar de Melhor Documentário em 2006.

Desta vez, distanciando-se das geleiras antárticas, a equipe de Jacquet se embrenha pelo Peru e Gabão para vivenciar o que é poeticamente chamado “florestas de chuva”, ecossistemas ainda não tocados pelos homens, mas que rapidamente desaparecem da superfície da Terra. Como companhia e guia, levam Francis Hallé (1938, França), biólogo, professor emérito da Universidade de Montpellier, que dedicou toda a vida a compreender como as plantas interagem com o meio-ambiente, trazendo à luz surpreendentes revelações que mostram que, embora elas nunca saiam do local onde surgiram, podem se comunicar à distância e mesmo identificar se a planta vizinha é ou não da mesma espécie. Entre as descobertas de Hallé, três são as mais importantes (leia em francês uma entrevista sobre isso – clique aqui): 24 modelos arquiteturais de crescimento das plantas de acordo com a verticalidade/horizontalidade, de acordo com o modo de crescimento dos ramos, e a disposição das inflorescências; o conceito de “crescimento tímido”, mecanismo que faz com que espécies de uma mesma árvore, brotadas proximamente, jamais cruzam seus galhos; e a noção de “unidades reiteradas”, sistema de reprodução de uma jovem árvore usando como suporte uma mais velha, da mesma espécie.

Francis Hallé ilustracao Helene Barrier sur revue_entre fr

Francis Hallé ilustracao Helene Barrier sur revue_entre fr

 

(Se você entender francês, pode fazer uma exploração virtual desta empreitada no site http://www.iletaituneforet-expedition.org)

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Li duas entrevistas com Francis Hallé e decidi traduzir algumas partes. Ver alguém apaixonado por plantas, falando delas com tal veneração, é tocante. Neste momento de crise hídrica sem par na história do Brasil, um recado de Francis parece profético: “Não importa como seja o futuro, nós precisaremos das florestas. Não toquem nelas”.

#10 – N’y touchons plus ! – Voyages en forêt des pluies from Wild-Touch on Vimeo.

Confira abaixo alguns trechos.

Legendas:

(A) – extraído de Rue89, 13/01/2015, por Thibaut Schepman (clique para ler no original)

(B) – extraído dos videos da websérie Il Était une Forêt Expedition (clique para ver) e da séria educativa Appendre la Nature (clique para ver)

Rue89: Nos seus livros e no filme Il Était une Forêt, o senhor dá testemunho frequente de sua imensa paixão pelos vegetais. Como isso surgiu?

Francis Hallé: Quando eu era estudante na Sorbonne, nos anos 1950, eu me interessava pelos animais, como, aliás, 99% da classe. Eu já tinha ido bem longe os estudando quando percebi que os vegetais são muito mais interessantes que os animais.

Eu me toquei disso num dia em que vi uma planta brotar sozinha na minha janela, sem que eu cuidasse dela. Continuei observando-a, e a vi dar flores, depois sementes e então se multiplicar. Achei isso de uma híper inteligência e de uma grande independência. (A)

***

Rue89: Como o senhor explica que haja, há muito tempo, tão pouca pesquisa e interesse pelas plantas, muito menos que pelos animais?

FH: Porque nós somos animais! (A)

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Rue89: Como o senhor observa as árvores?

FH: Quando estou nos trópicos, eu me coloco em frente à arvore e faço um desenho. Para registrar o que vejo, tenho necessidade de desenhar. Frequentemente me perguntam por que me indomodo de desenhar se existe máquinas fotográficas formidáveis. Mas é porque, para desenhar uma árvore, isso leva uma hora, a gente fica refletindo durante todo este tempo, se pergunta questões no momento em que árvore está diante de nós. (A)

***

Rue89: O que nos falta para nos maravilharmos com as plantas?

FH: É mesmo difícil se maravilhar com uma coisa que não faz barulho nem se mexe.

A maior parte das crianças pensa que as árvores não são seres vivos. Quando falo disso a elas, surgem discussões acaloradas. Eu lhes explico que a vida não é o caso de se mexer e fazer barulho; a vida é reproduzir-se e evoluir. As plantas fazem tudo isso e quando percebemos, é apaixonante. (A)

***

Rue89: O senhor já disse muitas vezes que tentou inutilmente chegar a uma definição de árvore. Conseguiu?

FH: Não! É muito complicado porque há muitos casos particulares entre as 70.000 espécies de árvores e porque nossas palavras são adaptadas para descrever animais, mas não as árvores.

As escolas florestais dizem que é preciso ter 7 metros de altura e que tenha galhos. Mas existe um tanto de árvores sem galhos e, na África, uma planta de 7 metros é uma grande erva, não uma árvore!

Não existe nenhuma definição que contemple todas as árvores. Diurante muito tempo eu disse: “Se você topar com seu carro numa planta e ela o quebrar, se trata de uma árvore.” Mas mesmo esse troço simplista não é verdade: me mostraram na África do Sul uma árvore que cresce embaixo da terra e da qual apenas algumas folhas a atravessam. (A)

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Rue89: O que ainda falta descobrir sobre as árvores?

FH: Estou convencido de que o essencial ainda precisa ser descoberto. (A)

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FH: Eu sei, por outro lado, que as plantas possuem muitas qualidades que podem nos inspirar [enquanto seres humanos sem predadores que se destroem graças à superpopulação], notadamente a autossuficiência, a discrição e a não-violência.(A)

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O que que quero demonstrar, fazer germinar na ordem do dia, é que as plantas são absolutamente essenciais; sem elas, nada de vida. Essas plantas têm uma importância tal que ela autorizam a vida de todo o resto, isto é, dos animais e da gente. (B)

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Comecei estudar as florestas tropicais em 1960. Achávamos que elas eram inesgotáveis, algo que nos parecia invencível. E hoje está quase tudo acabado. A situação se tornou bastante grave. Na duração da minha vida eu vi desaparecer quase todas as grandes florestas primárias da Terra. Quero mostrar que as florestas equatoriais não são o inferno verde,  um lugar perigoso, mas apenas um local que conhecemos pouco e mal, que não é feito para nós; nós podemos tolerar, mas não são feitas de jeito nenhum para nós; e são são apaixonantes. (B)

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Uma definição de floresta? Um monte de plantas, uma ao lado da outra, que a gente vê, e muitos, muitos mais animais que não vemos.

É claro que existem muitas diferenças entre as plantas e os animais, mas a principal, aquela que é a mais importante e deu origem a todas as outras é a maneira de se mover. Os animais, eles se mexem, vão atrás do alimento. Por isso, faz sentido que os órgãos dos sentidos estejam na frente. Mas a maneira de se nutrir nas plantas é totalmente, totalmente diferente: elas se alimentam da luz solar, através das folhas, estes captadores de sol. Assim é fácil entender porque as plantas podem ser imóveis. A imobilidade lhes convêm muito bem. Mas elas necessitam de animais vetores. E é isto uma floresta: a interrelação de seres vivos. (B)

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Nos trópicos, é necessário contar sete séculos para uma floresta secundária voltar a ser primária; na Europa, dez séculos. É bem demorado, bem demorado. (B)

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Nada é mais precioso no planeta que o solo. O solo é como um aparelho digestivo que digere tudo que cai sobre ele. (B)

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VOC, termo para compostos orgânicos voláteis. É a através deles que as plantas interagem, uma vez que não podem se mexer. Um exemplo é quando falta água. As plantas podem fazer chover sobre elas. Elas são como pavios, jogando toneladas de vapor de água na atmosfera. Mas acontece que mesmo numa atmosfera muito úmida pode não chover; é preciso que haja um “germe” que faz a chuva cair. Este “germe” são os VOCs. Eles sobem até as nuvens, as moléculas de água se aglutinam ao redor dele, formando uma gota, depois outra, e a chuva cai.

Os VOCs também fazem a comunicação entre plantas e animais. Hoje é um tema científico muito estudado, com vários laboratórios; mas há 30, 40 anos, isso faria todos darem risada.

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Muitos acharam que uma planta não produz excrementos. Mas nossos amigos da física mostram, pelas leis da termodinâmica, que uma máquina de fazer energia como esta, que a transforma em matéria, produz certamente algum dejeto. Há muitos séculos os botânicos querem saber onde estão os escrementos das plantas. Mas creio que há uma dúzia de anos, temos a solução e o dejeto das plantas é uma molécula muito complexa que se chama lignina, que confere rigidez às árvores. Como isso acontece? A lignina é uma substância líquida que, quando sai da célula, é extremamente tóxica, mas ela é produzida por células, os vasos, que são destinados a morrer. Então faz sentido que as árvores armazenem a lignina em células que vão morrer. E elas conferem rigidez a esses vasos, de modo que este dejeto das plantas as ajudam a crescer. E podemos perguntar por que uma planta guarda seus dejetos enquanto os animais não. Bem, uma resposta pode ser porque elas são imóveis, então precisam se haver com seus excrementos. Mas descobriram uma maneira de fazer com eles sirvam a algum propósito. (B)

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Uma floresta tropical na verdade são duas florestas: a de cima, formada pela canópia, onde a vida acontece; e a de baixo, da vegetação rasteira, onde as matérias são decompostas. A canópia é a floresta do presente; a de baixo é a floresta do passado, mas também do futuro, onde ocorre a mineralização de tudo que cai da canópia.

O que sabemos sobre a canópia. Algo essencial é que é o local mais vivo do mundo, é o ápice da biodiversidade terrestre e marinha. Canópia é a superfície aérea de uma floresta, aquela que recebe a luz do sol. (B)

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Qual é a diferença entre uma floresta tropical e uma floresta temperada? Aqui temos as quatro estações: verão, primavera, outono e inverno, enquanto que lá há apenas duas: a estação seca e a estação úmida. Quando está chovendo, a floresta tropical está no seu máximo, é um local fértil para a vida. Mas para a evolução existe a necessidade de limitações. Não é que não existam limitações para uma floresta tropical. É que nela as limitações são fortes, bem fortes, as dadas pelas interações entre plantas e animais, principalmente. Nas florestas temperadas, as limitações, que a empurram para a evolução, são físicas, dadas pelo clima. (B)

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O homem tem origem tropical e sempre foi questionado por que ele migrou. Bem, hoje acredito que já exista consenso sobre isso que se o o homem migrou para o norte ou para o sul foi para escapar da pressão do parasitismo. Claro, o clima ficaria pior, mas ele poderia se livrar dos parasitas. Então, os parasitas não são apenas um detalhe em nossa história, mas é fundamental. (B)

E, então? Não ficou apaixonado pelo tema e por ouvir Francis Hallé?

Eu fiquei!

Um abraço de cheiro, Mayra.

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