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Relaxamento com histórias ou sem histórias

Postado às 19:09 do dia 25/11/09

Na semana passada, eu estava dando um curso sobre a técnica do yoganidra de Satyananda em associação com a aromaterapia. Na turma, havia alguns professores de yoga e outros que já haviam praticado yoga.

Uma reflexão que surgiu foi se todas as pessoas gostariam de uma prática de relaxamento conduzida através de histórias. É um questionamento válido pois, para muita gente, ser conduzido através de imagens e símbolos pode parecer, no mínimo, difícil, senão, invasivo. Possivelmente, esta mesma pergunta já deva ter sido feito a Satyananda, pois em seu livro ele esclarece se o yoga nidra poderia ser considerado uma forma de hipnose ou uma forma de lavagem cerebral. Propus às minhas alunas no curso que ouvissem o que este professor disse a respeito. Mas antes de pedir que você também veja a opinião dele, deixe-me esclarecer sobre as etapas desta técnica de relaxamento no yoga. Uma forma de estruturá-las, é esta:

  1. Preparação
  2. Relaxamento
  3. Resolução (Sankalpa)
  4. Rodízio de Conscientização Corporal
  5. Respiração
  6. Visualização de Imagens
  7. Resolução (Sankalpa)
  8. Encerramento

A etapa da preparação é deitar na postura do savasana (decúbito dorsal com palmas para cima) verificando todos os itens de conforto do ambiente. Fechar os olhos e esperar que a mente fique mais quieta, que a respiração fique mais tranquila. Na etapa do relaxamento, o professor explica ao aluno que ele entrará em yoganidra, que não deve dormir, que deve manter o corpo imóvel, que preste atenção em sua voz e que não crie nenhum tipo de tensão para alcançar o relaxamento. Depois deste minutos, o aluno já se sente mais sereno. Então, o professor introduz a etapa do sankalpa. Sankalpa é uma resolução positiva que alguém faz para qualquer aspecto de sua vida. Sim, isso mesmo, você captou bem a ideia do sankalpa: é uma frase no melhor estilo PNL (programação neurolinguística). Evidentemente que Satyananda alerta para que não desperdicemos sankalpas com desejos triviais, como um carro maior, um salário maior ou um corpo mais magro. Mas, pela minha experiência, sankalpa tem que ser espontâneo e se surgir algo assim, que seja.

A etapa seguinte, do rodízio de conscientização corporal, talvez seja a mais comum a todas as linhas de yoga. O instrutor repete o nome de cada parte do corpo e o aluno vai levando a atenção a estas partes e transmitindo-lhes relaxamento. Simples assim. E, puxa, gostoso demais assim. Daí, pede-se para que o aluno respire mentalmente. Explico: que ele acompanhe o ritmo respiratório ou que imagine que está fazendo a respiração alternada. Nesta etapa, não solicitamos que a respiração seja de fato alterada como, por exemplo, pedir ao aluno que inspire profundamente expandindo o tórax. Devemos lembrar que o corpo busca a imobilidade. Aqui, quer-se voltar uma atenção mais apurada à respiração. Em seguida, entram as visualizações. É, propriamente falando, a parte das “histórias”. Mas não apenas elas, não, de jeito nenhum. Existe um yoganidra que Satyananda descreve que é a coisa mais linda do mundo sem nenhum enredo por trás, apenas uma associação livre de imagens, tais como “praia”, “deserto”, “montanhas”, “pôr do sol”, etc.

Ao final desta etapa, pede-se que o aluno repita o mesmo sankalpa que estabeleceu no início da prática e depois se faz o encerramento do yoganidra, trazendo o aluno para o momento presente, despertando-lhe a consciência externanda, ou seja, orientada novamente ao órgãos dos sentidos

Uma sessão de yoganidra completa pode durar de 20 a 40 minutos. É um bocado de tempo para relaxar sem dormir e, depois de uma prática intensa de posturas, ou de uma prática restaurativa, é deitar no chão, fechar os olhos e começar a roncar. Pode ser que muito do que alguns alunos reclamam de não gostarem de relaxamentos conduzidos é porque ficam indecisos entre seguir as instruções do professor e deixar-se levar pelo cansaço e sono e dormir. Os comandos e sugestões do professor soam como “ordens”, ao invés de convites. Bem, se for o seu caso, saiba que dois grandes professores de yoga dizem que não há problemas de dormir, nem em savasana, nem durante o yoganidra.

O primeiro professor é Iyengar. Em seu livro “A Luz na Vida”, ele comenta que é exigente com a prática de todas as posturas, exceto savasana, que considera a mais difícil de todas. ~Então, se um aluno ronca em sua frente, ele simplesmente deixa. O segundo é o próprio Satyananda que reitera página após página que não há mal algum em dormir durante o relaxamento. Ele comenta que o estado do yoganidra é um estado de receptividade, assim como o sono. Portanto, você estará sujeito às injeções positivas que o seu professor fizer em sua mente durante a prática, ainda que as receba em estado de total inconsciência, por estar dormindo.

Mas desconfio que a razão maior para que muitos se sintam desconfortáveis com a condução de histórias no yoganidra é pensarem, como os críticos de Satyananda, que estariam sujeitos a uma espécie de hipnose ou lavagem cerebral. Bem, agora preciso lhe contar aquelas opiniões que mencionei antes. Sobre hipnose, Satyananda diz:

“Yoga nidra é diferente de hipnose, embora partam ambos de um estado de relaxamento e receptividade. O estado do yoga nidra vai muito além do estado hipnótico, embora o fato da mente se dissociar dos sentidos passe por um estágio hipnótico. A diferença é que, no yoga nidra, consegue-se desconectar os canais sensitivos e ainda assim manter-se a consciência.  (tradução livre, pg. 31)

Quando estudei este capítulo, fui buscar informações sobre hipnose e me deparei com três requisitos que são imprescindíveis para que ela aconteça: a pessoa deve querer ser hipnotizada; deve acreditar que possa sê-lo; e deve estar completamente relaxada e confortável. Ora, não penso que “embarcar” nas visualizações e histórias do yoganidra requeira algo muito diferente disso também. Se dissermos que é preciso “querer se colocar no papel de ator das histórias”, “acreditar que elas possam fazer-lhe, de alguma forma, bem”, e “estar confortável e relaxado” são itens necessários ao yoganidra, teremos descoberto as razões porque muitos não gostam de serem conduzidos com histórias: justamente, por não atenderem a eles. Mas atenção para não criar julgamentos a respeito: o yoganidra é sempre uma das formas de relaxar, entre tantas outras igualmente boas. Cabe a cada um achar aquela de que mais gosta.

Mas ainda restaria o receio de que o yoganidra fosse uma lavagem cerebral. Receio ainda maior depois que sabemos que estamos sujeitos às sugestões que o professor fizer, mesmo que tenhamos dormido. É como se alguém viesse à beira de nossa cama e começasse a nos sussurrar mensagens para entrar em nosso subconsciente subliminarmente. Bem, neste caso, não há mesmo muito o que fazer, exceto confiar que o professor é ético. Além disso, se você dormir e ficar desconfiado do conteúdo da história sugerida, sempre lhe cabe perguntar ao colega do lado se não “rolou algo sinistro”.

Brincadeiras à parte, a respeito disso, Satyananda responde de maneira talvez sofismática se existiria algo no mundo que não fosse uma lavagem cerebral? Pelo menos, ele diz, o yoganidra estaria lavando seu cérebro com algo limpo.

Com todas estas reflexões, pode ser que você continue preferindo um relaxamento em silêncio ou com apenas – no máximo! – um rodízio de conscientização do corpo. Não vou nem argumentar, pois tem dias que eu também prefiro não conduzir de modo algum o savasana de meus alunos. Yoganidra é estado de espírito e, quando não é o momento, seja de visualizar, seja de propor visualizações, sempre nos resta praticar o silêncio. Mas para quem gosta de conduzir ou gosta de condução, mas não gosta de historinhas, basta saber que Satyananda propõe mil e uma formas de relaxar o corpo e ficar apenas nele, inclusive por longos – e abençoados – 20 minutos em savasana.

Namaste, Mayra.

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