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A vida secreta das árvores – Peter Wohlleben

Postado às 20:20 do dia 30/07/17

De tempos em tempos alguns assuntos entram na moda. Ou porque diferentes tecnologias surgem permitindo avanços inauditos naquela área, ou porque… Não tem outro porquê – a tecnologia é a mola propulsora. Foi assim, por exemplo, com o olfato. Na esteira do mapeamento genético, um dupla descobriu os 1.000 genes dos receptores olfativos, Linda Buck e Richard Axel. E então o mundo entendeu que o olfato era a bola da vez.

Agora são as plantas. Bom, as plantas sempre foram a bola da vez, e quem tenha lido 50 Plantas que Mudaram o Rumo da História certamente entende que, pra comer, ou pra se curar – ou, ainda, pra conversar com deuses -, a humanidade admira, estuda e persegue as plantas desde sempre. Mas existe coisa nova no front: tecnologias que nos dizem que as plantas ouvem, escutam, conversam entre si, cooperam com seres de outras espécies, e cheiram, veem e tateiam. Animal, né? Ou melhor: plantal, né? É.

O livro de Peter Wohlleben causou um pequeno furor editorial. Lançado em 2015 na Alemanha, país do autor, vendeu por lá 450 mil cópias e até junho do ano passado já havia sido vendido em 25 países. Nada mal pra um best-seller de… botânica. Mas, embora seja um livro bastante legal, preciso dizer que me pareceu pálido diante de outro, menos conhecido, porém sensacional, o Brilliant Green, de Stefano Mancuso. Com este sim (e devo uma resenha dele neste blog), me encantei, me surpreendi e chorei. A diferença é que Peter, um engenheiro florestal, se debruçou basicamente sobre as árvores da reserva onde trabalha, composta de faias e carvalhos. Já Stefano é um cientista do ramo da neurobiologia, e seu campo de estudo é mais vasto, olhando para plantas de diversas espécies. Infelizmente, Brilliant Green ainda não tem tradução no Brasil. Então vamos descobrir o que o trabalho de Peter revelou sobre estes seres formidáveis que são as árvores. Não desanime: o livro dele também vale uma lenta e saborosa leitura. E, ao final, você, como eu, terá certeza absoluta de que árvores são os seres mais maduros de nosso planeta.

Leia abaixo algumas citações favoritas comentadas.

 

Uma andorinha só não faz verão

“Por que as árvores são seres sociais? Por que compartilham seus nutrientes com outras da mesma espécie e, com isso, ajudam suas concorrentes? Os motivos são os mesmos que movem as sociedades humanas: trabalhando juntas elas são mais fortes. Uma única árvore não forma uma floresta, não produz um microclima equilibrado; fica exposta, desprotegida contra o vento e as intempéries. Por outro lado, muitas árvores juntas criam um ecossistema que atenua o excesso de calor e frio, armazena um grande volume de água e aumenta a umidade atmosférica – ambiente no qual as árvores conseguem viver protegidas e durar bastante tempo.” (p. 11)

– É preciso dizer: humanos, aglomerados, não formam uma floresta.

“Na floresta também existem muitos perdedores, membros mais fracos que foram auxiliados pelos mais fortes mas mesmo assim ficaram para trás. Não importa se o motivo é a localização, a falta de nutrientes, a disposição genética ou outro problema qualquer: eles serão presas mais fácies de insetos e fungos.

Do ponto de vista evolutivo, faz sentido que apenas os membros mais fortes da comunidade sobrevivam. Mas o bem-estar do grupo depende da comunidade, e, quando os membros supostamente fracos desaparecem, os outros também saem perdendo. A floresta fica mais exposta e o sol quente e as tempestades de vento alcançam o solo, interferindo na umidade e na temperatura ideal.” (p. 21)

– Temos que aprender a lição: mais fracos são supostamente fracos.

 

Wood Wide Web

– Aqui está um dos conceitos mais legais que não estudamos, nós de 40 e poucos anos, na escola: as raízes das árvores se valem de fungos pra transmitir mensagens umas às outras. É o que Peter chama de wood wide web. Esta rede, apontam os cientistas, é capaz de transmitir desde informações sobre insetos nocivos, alterações climáticas e estado de saúde da comunidade interligada. Por isso, explica o autor, árvores plantadas isoladamente sobrevivem menos e também plantações, sobretudo nas quais houve transplante de árvores crescidas, com suas raízes e fungos arrancados de um local pra outro. Diz ele:

“As plantas cultivadas não são capazes de se comunicar umas com as outras, seja por cima ou por baixo da terra. São quase surdas-mudas, por isso se tornam presas fáceis para insetos.” (p. 17)

– Como iniciei esta resenha fazendo um paralelo com o olfato, lembrei-me de Helen Keller, a famosa inglesa que, murda e suda, compensou sua deficiência desenvolvendo um olfato excepcional. Não podemos negligenciar árvores deficientes esperando que se saiam tão bem quanto Helen. Histórias exitosas, inspiradoras, se contam em dedos das mãos.

“Ao longo de décadas, o micélio (rede subterrânea da maioria das espécies de fungo, formada por filamentos extremamente finos) tende a se ampliar mais e mais. Na Suíça, um único fungo do gênero Armillaria, comumente chamado de cogumelo-do-mel, alcança quase 500 metros quadrados de extensão e tem cerca de mil anos. No estado norte-americano do Oregon, outro pesa 600 toneladas, tem cerca de 2.400 anos e ocupa mais de 8 quilômetros quadrados de extensão. Dessa forma, os fungos são os maiores seres vivos conhecidos do planeta.” (p. 52)

– E a gente que presta atenção em fungos só quando dão micoses na unha…

 

Devagar se vai ao longe

– Outro conceito que Peter introduz é o da “amamentação”. Ele explica como a sombra de grandes árvores inibe o crescimento de menores, originadas de sementes que caíram perto da mãe. O resultado é que a fotossíntese destas bebês é realizada apenas o suficiente pra não morrerem. Elas crescem lentamente. E este crescimento lento torna as células da madeira tão minúsculas, ocupando espaços tão apertadinhos, que sobra pouco ar pra que fungos se desenvolvam. Este crescimento lento também as protege de tempestades. No longo prazo, quando a “árvore mãe” tombar, a árvore filha terá força suficiente pra, agora sim, aproveitar a clareira e acelerar seu desenvolvimento saudável. É sobre esta espera que ele fala:

“Na nossa floresta há faias jovens, que já aguardam há pelo menos 80 anos debaixo da progenitora de cerca de 200 anos (convertendo para o padrão humano, 40 anos). Possivelmente a espera durará mais 200 anos até terem chance de crescer. No entanto, essa espera não é tão ruim: as árvores-mães estão em contato com as filhas pelas raízes e lhes fornecem açúcar e outros nutrientes. Podemos dizer que as árvores são amamentadas.” (p. 37)

 

Beberronas

“Para as árvores, é mais difícil suportar a sede do que a fome, pois alimento elas obtém a qualquer momento realizando a fotossíntese. No entanto, as árvores não produzem nutrientes sem umidade. Por dia, uma faia adulta consegue captar mais de 500 litros de água nos galhos e nas folhas, desde que consiga extraí-la do subsolo.” (p. 45)

– Você sabe: não é cortando uma árvore que teremos mais água, ainda que ela consuma muito.

 

Quando a gente só cresce para os lados

“De qualquer forma, em algum momento toda árvore para de crescer em altura. Suas raízes e seu sistema vascular não conseguem bombear água e nutrientes para cima, pois o esforço seria grande demais. Em vez disso, ela passa a engrossar cada vez mais (outro paralelo com seres humanos em idade avançada).” (p.65)

– Um paralelo: engordam pros lados, ok. Um não-paralelo: engordam em idade avançada; nós, antes. E uma grandessíssima diferença, insuperável para nós, na verdade: a “barriga” que cresce pros lados nas árvores tá sempre durinha. Árvores desenvolvem barriga-tanquinho! (Não ria; é triste sabermos que não conseguimos envelhecer igual.)

 

Karma brabo

“As árvores podem crescer em ambientes extremos. Na verdade, podem não ter alternativa, pois, quando a semente cai, somente o vento e algum animal podem mudar sua localização. Quando germina na primavera, sua sorte está lançada. A partir de então, a muda está ligada para o resto da vida àquele pedaço de terra e precisará aceitá-lo.” (p. 71)

– Estou só de olho em você querendo viver no Canadá, só de olho. Não maldiga sua sorte: uma árvore nasce, cresce e nunca poderia sair do Brasil.

“Toda árvore está condenada a crescer (…)” (p. 143)

– Pense nisso: uma vida inteira trabalhando, fabricando seu próprio alimento, exceto por umas breves folgas no inverno; e ao final da vida, a morte. Nada de aposentadoria. Árvores não têm previdência.

“As árvores não podem andar, mas precisam se deslocar. E como fazem isso? A solução está na transição entre as gerações. Toda árvore passa a vida fixada onde a semente criou raízes. No entanto ela se reproduz, e no curto período em que os embriões estão nas sementes eles são livres. Assim que a semente cai da árvore, sua viagem começa.” (p. 167)

– Gostaria muito que, imediatistas que somos, gerações X, Y e Millenials, entendêssemos que, embora um indivíduo possa andar, apenas gerações é que se deslocam. E quando não nos importarmos mais em deixar legados a próximas gerações, porque teremos consumido tudo que pudermos em nossas andanças, a humanidade parará.

 

Earth diving

“Para nós o subsolo é ainda mais desconhecido que o mar.” (p. 81)

– Aventureiros, por que estão demorando?!

 

Senhor Caronte

“Seja madeira em decomposição ou caracóis mortos, não há nada que não sirva de alimento para pelo menos uma espécie de ácaro, criatura imprescindível para o ecossistema, pois vive na interseção entre o nascimento e a morte.” (p. 84)

– Nunca mais maldiga os ácaros de seu colchão: eles se alimentam de suas células mortas, mesmo que deem nascimento à sua rinite.

 

Vivemos das sobras

“A clorofila ajuda as folhas a processar a luz. Se as árvores processassem toda a luz, não restaria quase nada, e a floresta teria um aspecto noturno também durante o dia. No entanto, a clorofila não processa o verde, ou seja, não consegue usar essa faixa de cor, por isso a reflete sem usá-la. Esse ´ponto fraco´possibilita enxergarmos essa ´sobra´da fotossíntese, e é por isso que quase todas as plantas parecem verdes. No fim das contas, o que enxergamos é a luz que a folha desperdiça, o excedente que a árvore não pode utilizar. Portanto, o que nós achamos lindo é o que a floresta considera inútil. Gostamos da natureza porque ela reflete o que não aproveita.” (p. 202)

– Eu sempre soube: vivemos de árvores, vitimizados pela Síndrome de Estocolmo.

 

Especismo

“Na Suíça, é o próprio Estado que se preocupa com a vida da vegetação local. A Constituição do país diz que ‘no trato com animais, plantas e outros organismos, deve-se levar em conta a dignidade da criatura´. Por isso, no país é proibido cortar flores na beira de estradas sem que haja um motivo razoável. Embora isso venha causando reações negativas ao redor do mundo, aprovo a queda das barreiras morais entre animais e plantas. É inevitável mudar de postura quando conhecemos as características, sensações e necessidades da vegetação.” (p. 215)

– E o que dizer do nosso país, que derruba florestas pra criar gado, ferindo então a dignidade de dois reinos, vegetal e animal?

“Apenas quem conhece as árvores é capaz de protegê-las.” (p. 217)

– É minha missão: ensinar, falar de plantas e seus óleos essenciais. Assim ajudarei criar mais protetores. Espero que tenha se motivado a ler o livro. Precisamos de muitos protetores.

 

Escrito por Mayra Corrêa e Castro (R) 2017

WOLLEBEN, Peter. A vida secreta das árvores. Tradução Petê Rissatti. Rio de Janeiro: Sextante, 2017.

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